Sexta-feira, 6 de Março de 2009
Sexta-feira, 06.03.2009

 

Sempre ouvi a minha avó dizer que chegar a uma idade avançada era uma benção, pode-se passar a fazer o que se quer, sem julgamentos de ninguém. É verdade, e não só o é para a terceira idade (ou segunda) mas é um facto que cada ano que passa nos permite a fazer mais uma ou outra estupidez e ficar impune. Este ano acho, por exemplo, que já posso fazer macacadas às crianças que passam no transito. Sou uma senhora.

 

Na Avenida da Igreja havia uma senhora que se vestia assim, só que com lantejoulas e um chapéu de pêlo para compor o ramalhete. Em pequena eu achava que, obviamente, aquela senhora era maluca. Se a minha mãe não me deixava vestir à pequena sereia quando íamos à rua (outra benesse que ganhei com a idade), ela certamente não tinha o direito de o fazer, ou ninguém que a impedisse. Era doida. Depois cresci e comecei a invejá-la. Lantejoulas de dia, sapatos brancos em Janeiro, chapéu dentro de casa, aquela desgraçada fazia tudo o que era proibidíssimo fazer em minha casa. Fashionwise.

 

Acho que foi a maluquinha-da-avenida-da-igreja que me pôs a pensar abstractamente pela primeira vez na vida. E pôs aquele bichinho na minha cabeça de saber que há sítios no mundo onde uma pessoa pode sair de casa vestido com o que quiser e ainda assim sobrevive. E calramente isto não tinha nada a ver com roupa. Tinha a ver com um whatever, nevermind que só vim a conhecer depois na adolescência.

 

O Mickey Rourke é um deus. Não sei se já tinham percebido onde esta conversa ia dar, mas este é finalmente o propósito da historia toda. O Mickey Rourke é um deus. É um homem que sabe a sorte que tem de existir, e ao mesmo tempo sabe a sorte que os outros têm que ele exista. Isto é tão raro, caraças. Um homem que soube reconhecer que o seu único amigo foi um animal que o viu provavelmente no seu pior e ainda assim dependeu dele, fazendo dele um ser humano de importância.

 

Mickey Rourke é um deus na entrega dele próprio ao mundo. No The Wrestler (visto há mais de um mês ainda me assombra) Rourke não tem medo de ser the Ram, e não tem medo que The Ram morra. Na vida, nesta merdinha de todos os dias, Rourke não tem medo de nada. Já viu o medo, há pessoas assim. Este homem, este deus, sai de casa assim porque é assim que se veste há 20 anos, estes últimos 20 anos em que ninguém quis saber que existia. Digam-me, a sério, digam-me se esta merda não vos perturba e fascina ao mesmo tempo?

 




6 comentários:
De Aurea Mediocritas a 6 de Março de 2009 às 12:49
Houve um momento numa entrevista dele que me deu um arrepio na espinha.
Quando lhe perguntaram como é que sentia por este "renascer" de interesse no seu trabalho, ele fica com os olhos um bocadinho de nada marejados e responde:
"Grateful".

Há pessoas que passam por uma vida toda sem aprender nada, esta aprendeu humildade e gratidão.
Pudéssemos todos dizer o mesmo.


De Domesticada a 6 de Março de 2009 às 13:00
Está a chegar o dia em que este blog só existe em função das duas (?) pessoas que compreendem o que eu penso. E isso faz-me muito feliz, não sei porquê.


De Aurea Mediocritas a 6 de Março de 2009 às 14:36
Quality over Quantity.


De Anónimo a 10 de Março de 2009 às 21:34
invejo este gajo. o tal que fez amor com a carré otis, que eu idolatrava aos 12 (boa maneira de ver as coisas), em orquídea selvagem. takes sem conta, presumo. cabrão.

ps - maria, a ver se nos vemos por aí. ja tenho saudades de uns desvarios ctg. beijos!


De Anónimo a 10 de Março de 2009 às 21:36
sou eu. o do último comentário.

zm


De Anónimo a 13 de Abril de 2009 às 15:02
Está tooooooodo queimadinho..!


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