Sexta-feira, 24 de Abril de 2009
Sexta-feira, 24.04.2009

 

Cresci a olhar para esta imagem. Estava na sala de jantar dos meus avós uma réplica, bem grande, e ficava mesmo por cima da cabeça da minha avó e de frente para mim quando lá ficava em casa. Antes de saber ler, a minha atenção neste quadro ia sempre para a menina da última janela, que era bonita e parecia feliz e tinha uma flor no cabelo. Isto deve ter acontecido porque evitava concentrar-me nas caras que metem um bocadinho de mdo e que ficavam a ver-me comer.

 

Quando aprendi a ler, a frase "a poesia está na rua" foi lida por mim muitas vezes à mesa, devagarinho - a pôésia estáaa na Érre e U .. RUA. Depressa se tornou numa frase que significava almoços de verão com gelatina de sobremesa, diabruras com a minha prima, Maria-João-pára-de-engonhar-e-come-a-sopa, etecétera e tal.

 

Um dia os meus pais, como quem explica pela primeira vez a um filho como se fazem os bebés, sentaram-me ao pé deles num feriado, tocaram discos do Zeca Afonso e contaram-me, com muito tempo , muito carinho e muitos pormenores o que foi o 25 de Abril. No fundo, os meus pais contaram-me, pela primeira vez, o que eram  para além de serem meus pais. E desde esse dia, nunca mais vi o quadro dos meus avós com os mesmos olhos.

 

Como se automacticamente tivessemos criado uma tradição familiar naquele dia, todos os anos, desse para a frente, na minha casa se contaram histórias do 25 de Abril. Sempre histórias novas, sempre histórias mais intensas com o passar dos anos, adivinhando a minha crescente capacidade de digerir histórias mais pesadas. Os amigos presos, os amigos exilados, os sustos, os insultos na rua, a felicidade daquele dia, a minha mãe com pneumonia a sair para a rua, a minha avó com medo do fim do mundo a comprar enlatados.

 

E com cada ano que passava, lá voltava eu a casa dos meus avós, sentada à mesa de jantar a dar mais e mais significado àquele quadro. O casal apaixonado a beijar-se na rua, a família de cinco pessoas à espreita pela janela, o olhar determinada do quem lidera o corso na rua... Nunca mais vou ver essa imagem sem parar, um bocadinho, a cumprimentar todas as pessoas que lá estão, a ilustrar a história dos meus pais e do meu país.

 

Secretamente, e cheia de peso na consciência, pensava que gostava de ter vivido tudo aquilo, não ter crescido com a minha liberdade adquirida, ter tido um dia assim, para sair à rua e celebrar uma vitória com o resto do mundo. É só hoje que vejo que ter nascido depois de 74 é uma benção escondida. É nascer na liberdade de poder ser mulher, como quero, e poder fazer com as minhas ideas o que quero. E ao mesmo tempo poder agradecer por ter tido este Pai e esta Mãe, que tanto fizeram para que percebesse o privilegiada que sou.

 

 

 




6 comentários:
De isabel trigo mira a 24 de Abril de 2009 às 20:30
VIVA O 25 DE ABRIL!
VALEU A PENA TER SAIDO À RUA NAQUELE DIA, TER VIVIDO NO 24 POIS SÓ ASSIM É QUE SE PODE DAR VALOR Á LIBERDADE QUE NESTE MOMENTO VIVEMOS.
AINDA BEM QUE CONSEGUIMOS(NÓS OS DESSE TEMPO) TRANSMITIR AOS NOSSOS FILHOS A GRANDE SORTE QUE ELES TIVERAM, POIS O PODER DIZER O QUE QUEREM SEM TER DE OLHAR PARA O LADO, PODER IR PARA O ESTRANGEIRO SEM TER QUE IR AO NOTÁRIO COM O MARIDO PARA TER A AUTORIZAÇÃO DELE POR ESCRITO,ETC.ESTE BEM É A NOSSA HERANÇA PARA TODOS OS QUE NASCERAM DEPOIS DO 25 DE ABRIL. E O PODER VOTAR!!!!
NÓS PODEMOS VOTAR MAL (ENTÃO COM ESTES NOSSOS POLÍTICOS) MAS SOMOS NÓS QUE OS ESCOLHEMOS SOMOS NÓS QUE OS CASTIGAMOS QUANDO ELES MERECEM.VIVA A DEMOCRACIA!!!
NUNCA DEIXEM QUE VOS TIREM AQUILO QUE É NOSSO E QUE TODOS OS SERES HUMANOS TEM DIREITO A LIBERDADE....NEM QUE SEJA PARA FAZER ASNEIRAS!


De isabel trigo mira a 24 de Abril de 2009 às 20:39
PARABENS PELO POST. ADOREI.ATÉ ME VIERAM AS LÁGRIMAS AO ROSTO.
AINDA BEM QUE TENS OS PAIS QUE TENS!
ÉS TAMBEM UMA GRANDE FILHA, DE CERTEZA!
E OS TEUS PAIS DEVEM TER MUITO ORGULHO EM TI. ÉS LINDA! ÉS UMA GRANDE MULHER! PERCEBESTE TUDO!


De anonimo a 25 de Abril de 2009 às 15:29
25 de abril sempre.viva a liberdade


De Rita Vizinho a 27 de Abril de 2009 às 14:04
Engraçado... noutra sala, com outros avós e pais, também passei horas a olhar para esse mesmo quadro, e tantas outras a ouvir todos os detalhes desse dia de conquista...
A diferença, é que a mim diziam, Rita, come devagar.. olha que te engasgas! ;)
RitaVizinho (outra filha de Abril)


De A.N a 29 de Abril de 2009 às 08:39
Brilhante Jay!
Num país que louva e forma parcerias com ditadores e que no dia 25 de Abril ousa inaugurar uma praça chamada António de Oliveira Salazar, é bom voltar a ler palavras encaloradas de um evento que independentemente das imperfeições, nos permite hoje discutir ideias.

E sim, és uma grande filha! ;)


De Domesticada a 29 de Abril de 2009 às 09:47
Hehehehe, somos toda uma família de pessoas muito subtis. Tu ambém uma grande filha!


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